sábado, 8 de maio de 2010

" Cadastro nacional vai facilitar adoção de crianças e adolescentes

Bianca Melo - Estado de Minas





Meninas brancas, recém-nascidas, saudáveis ou com, no máximo, três anos de vida. Este é o perfil desejado pelos pais que engrossam a fila de adoção no Brasil, o que dificulta o processo e deixa mais de 600 crianças, com mais de 10 anos, nos abrigos de Belo Horizonte. No Brasil são 1.887 que esperam, sem sucesso, uma família substituta. A realidade das crianças disponíveis para adoção é outra: apenas 33% delas são brancas e a maioria tem dois ou três irmãos, vítimas de negligência e maus-tratos, que não querem ficar separados, mesmo num novo lar.

Segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), 80,7% dos interessados em adotar exigem crianças com, no máximo, três anos, ao passo que só 7% das cadastradas possuem essa idade. Perto de se tornar adolescente, então, é quase impossível achar um interessado.

Apesar das exigências dos futuros pais adotivos, a longa fila de candidatos, com mais de 12 mil nomes, deve andar mais rápido com a criação do Cadastro Nacional de Adoção. Promessa de mais de uma década, o cadastro começa a funcionar, timidamente, mas com expectativa de amenizar o quadro. Hoje, uma pessoa que quer adotar uma criança e se inscreve em Belo Horizonte, por exemplo, só tem acesso ao cadastro dessa cidade. Com o cadastro, uma só inscrição dá à mesma pessoa de BH condições de candidatar-se à adoção em outros estados. O perfil buscado pelo adulto é cruzado com os dados de crianças de todo o Brasil, aumentando as chances de conseguir um resultado positivo. Apesar de ter sido criado em abril de 2008 e ter começado a funcionar no fim do ano, as informações ainda são mínimas, considerando o tamanho do país e do problema. Mas, em pouco tempo, há chances de se ter um quadro completo de diferentes localidades brasileiras.

Os primeiros registros do cadastro identificaram no país 12.836 pessoas interessadas em adotar. Só em Belo Horizonte, há mais de 300 nomes na fila, informa a psicóloga Jane Franco, do Setor de Estudos Familiares do Tribunal de Justiça de Minas. Desde novembro, eles começaram a ser convocados para dizer se querem participar do cadastro. “É preciso que estejam dispostos a ir a outros estados e custear os gastos, caso apareça uma criança que atenda as expectativas”, explica Jane.

Pelos resultados iniciais, é possível se ter uma ideia do desencontro entre pessoas que querem adotar e das crianças que esperam uma família. A exigência de crianças saudáveis é generalizada. Embora apenas 33% dos menores disponíveis para adoção sejam brancos, 70% dos possíveis pais só aceitam filhos dessa raça.

A aposentada Vera Lúcia Bastos, de 61 anos, moradora da capital, é exceção. Há 14 anos, ela se tornou mãe de coração, como gosta de dizer, de Marlon, que foi para sua casa recém-nascido. Antes, Vera trabalhou oito anos nos Estados Unidos, o que a ajudou a fazer uma boa poupança. “Eu não tinha marido, mas voltei certa de que queria adotar.” O primeiro desejo era uma menina, mas soube de uma moça que estava disposta a doar uma criança e foi ao hospital mesmo sem saber o sexo. Ao chegar, viu o menino, de lábios leporinos (má formação congênita que resulta em abertura do lábio). “Ele estava isolado das outras crianças e não tive dúvidas de que queria ser sua mãe e cuidar dele.”

Na nova família, Marlon fez nove cirurgias para correção dos lábios, sete delas em São Paulo. Há três anos, a mãe se aposentou e hoje sobra tempo para viajar e passear com o filho. “Queria curtir muito meu filho e pude fazer isso. Mesmo solteiro, é possível adotar, basta que comprove condições e tenha amor.”

Aprimoramento

O juiz titular da Vara Cível da Infância e da Juventude de Belo Horizonte, Marcos Flávio Lucas Padula, comemora a criação do cadastro, mas pondera que precisa ser aperfeiçoado. Ele atribui a inserção de dados aos juízes e à equipe técnica, mas conta que “não se alocou verba para capacitar o setor técnico e, em alguns casos, aumentar o quadro de pessoal, porque é um trabalho dobrado”.

Em geral, o interessado em assumir uma criança espera um ano e meio, segundo Padula, situação que pode ser acelerada com informações de outras cidades. Em geral, os recém-nascidos conseguem rapidamente uma família. Os maiores ficam em um dos 46 abrigos da capital, à espera de adoção ou da certeza de que não voltarão mesmo para as famílias de origem.

Leia também
Adoção por estrangeiros só em último caso
Famílias não se interessam por crianças com mais de 10 anos
Comarcas ficam sem comunicação

"

Nenhum comentário:

Postar um comentário